Ressignificação Linguística de Moçambique
Entre Língua, Cultura e Oratura Nyungwe
DOI:
https://doi.org/10.69696/somanlu.v24i2.17074Palavras-chave:
Línguistica, Nyungwe, Moçambique, Decolonialidade, AfricanizaçãoResumo
Ressignificação Linguística de Moçambique – Caso Nyungwe aborda aspetos linguísticos e culturais de Moçambique que têm a ver com a colonização portuguesa e a atuação dos sucessivos governos de Moçambique independente com o objetivo de tentar assinalar, corrigir e ressignificar imprecisões culturais, linguísticas, simbólicas, mitológicas cometidas nesses dois períodos e que afetaram negativa e definitivamente as questões acima indicados. Visa ainda apelar à reafricanização dos espéritos dos africanos e o fortalecimento da identidade cultural. Esta abordagem usa a metodologia adequada e adaptada às culturas e tradições orais cujas fontes estão inscritas na natureza e na sociedade, em que o(s) autor(es) é/são a comunidade linguística, são os mais velhos, guardiões, bibliotecas vivas de saberes ancestrais. Sendo esta uma pesquisa sobre Moçambique – África, não faria muito sentido usar uma metodologia descontextualizada da realidade Subsariana. Parece ser uma abordagem inovadora e pode ter algum interesse para a academia na medida em que se inscreve nas lutas dos povos do Sul global pela sua libertação e descolonização cultural, linguística, académica, epistemológica, mental, espiritual e a consequente reafricanização dos espíritos (Amílcar Cabral) e a reivindicação das epistemologias afrocêntricas, consentâneas com as realidades destes espaços em jogo, condição sine qua non para o desenvolvimento destes países. Os dados analisados são corruptelas de antropónimos, cronómios, epónimos, topónimos, etc. espalhados pelo Moçambique inteiro e o que destruíram deliberadamente e substituído por etiquetagens portuguesas, tentando apagar as memórias ancestrais africanas, que importa procurar corrigir e repor. Impuseram seus nomes em territórios ou pessoas como Américas, Brasil (Pindorama), Moçambique, António, Conceição, Domingos, Patrícia, com batismos, padrões, ferro quente, quando já possuíam seus nomes étnicos. Colocar outra identidade ou nomear é a arte de destruição da autenticidade, dominação, ocupação mais subtis (Nêgo Bispo); acabar as línguas indígenas nos locais colonizados, aniquilar ou pilhar os saberes locais, alienar povos inteiros constituem estratagemas dos mesmos crimes contra a humanidade. Inclusive criminalizaram (proibiram) culturas, línguas, religiões dos colonizados. Eles deviam ser únicos detentores de culturas, línguas, saberes, religiões, civilizações. Os escritos dos colonialistas sobre os povos colonizados estão cheios de distorções, armadilhas. Todos os povos são providos de saberes/ fazeres, conhecimentos, mas a cosmovisão monolítica de Deus único, verdade ou certeza (O Princípio da Incerteza) única, modo de ser e estar único não reconhecem o politeísmo, as verdades múltiplas e fluídas, outras maneiras de ser e estar. Para essas forças, todos os outros povos são sub-humanos, destituídos de saberes, pagãos, etc. A ausência de registos escritos por autóctones de Moçambique complica o resgate do que foi destruído. Mas não é impossível. Alguns saberes chegaram até aos dias de hoje através de cosmologias politeístas e da transmissão de geração em geração (Nêgo Bispo). Este artigo, escrito a partir da oralidade, com fontes orais, é um esforço na direção da revitalização das memórias ancestrais destruídas, apagadas pelos invasores e colonizadores, aprendendo com a oralidade a fim de reescrever para restituir os destruídos. Porque “não há quem diga sobre a vida de um povo melhor que as suas cantigas” (Nêgo Bispo). Por isso, aparecem poucas fontes escritas. Neste sentido, os conceitos e as metodologias utilizadas foram revistas e atualizadas por forma a se adequarem a espaços de tradições e culturas orais, em que a escrita é marginal, limitada e restrita a domínios oficiais e elitistas. Isto tem implicações diretas na bibliografia escrita, que acaba por ser escassa, à força das fontes orais, estas são originais/ primeiras porque obtidas em primeira mão dos próprios protagonistas – a comunidade cultural e linguística. É pouco sensato que os paradigmas ocidentais considerem não culturas as culturas orais milenares da maior parte dos povos do mundo inteiro. Isso fez escola e tem arredado das ciências muitos saberes que dariam valiosos.
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